A Friboi é uma das empresas que operavam um cartel que controlava o preço da arroba do boi no mercardo
As gravações com a confissão foram divulgadas pela Folha de São Paulo depois de Periciadas pela Unicamp
Gravações do proprietário do Friboi, José Batista Junior, que se diz pré-candidato do PSDB ao governo de Goiás, comprovaram que a empresa, juntamente com outros oito frigoríficos, operam em regime de cartel. Entre as noves empresas, quatro operam em Mato Grosso do Sul. A denúncia foi feita pelo jornal Folha do Povo de São Paulo, na sua edição de ontem. A Friboi estava sendo investigada pela Cade ( Conselho Administrativo de Defesa Econômica ) por combinação de preços.
“ Nós, o Bertin, o Independência ... os três põem o preço do boi em tudo quanto é Estado. Mato Grosso nós peita... Nós sozinho regulamos o preço. Estamos fazendo o preço do Mato Grosso, e os outros acompanhas (sic)”, diz José Batista Junior, dono do Friboi.
“Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas, agora nós estamos em cinco Estado, e nos cinco Estado nós combina com três”, diz nomeando os frigoríficos Independência , Bertin e Mataboi – que negam participação no esquema.
O esquema descrito por Batista Junior força o pecuarista a vender o rebanho aos frigoríficos a um preço abaixo da lei da oferta e procura, deturpando o mercado. No ano passado, a arroba do boi gordo chegou a ser cotada a R$ 63 e neste ano – antes da constatação da febre aftosa – o valor da arroba permaneceu por um longo período em torno de R$ 47. A investigação por formação de cartel partiu de denúncia feita pela CNA ( Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) ao Cade atrás de provas sobre a prática de combinação de preços no setor. Ao todo, são nove as empresas frigoríficas investigadas, sendo quatro de Mato Grosso do Sul – Friboi, Indepência, Bertin e Marfrig – e ainda Frigoalta, Minerva, Mata Boi, Boifran e Basboi.
Junior fez as declarações diante de testemunhas que estão em guerra comercial com o Friboi, sem saber que estava sendo filmado e gravado durante as conversas. Além da confirmação da formação de cartel, o irmão de Batista Junior, Joesley Mendonça Batista, confirma ter um “ contrato de gaveta ” com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), pelo qual assumiu uma dívida de R$ 11,2 milhões do grupo concorrente Araputanga.
Os dois frigoríficos firmaram em 1999 compromisso de arrendamento com opção de compra do frigorífico Araputanga (MT). Os dois protagonizam disputa há anos na Justiça, a qual põe o BNDES em situação delicada. O banco nega o “contrato de gaveta”, mas reconhece ter cometido “erros” na operação e é acusado pelo Araputanga de favorecer financeiramente o Friboi, empresa que concentra R$ 568 milhões em empréstimos do BNDES.
A formação do cartel e o contrato “heterodoxo” com o BNDES foram admitidos pelos proprietários do Friboi em pelo menos três reuniões. Os encontros foram registrados pelo Araputanga e as gravações, obtidas pelo jornal Folha de São Paulo. Antes da publicação, o vídeo e o áudio dos registros foram periciados e atestados como autênticos por Ricardo Molina, perito do Laboratório de Perícias da Unicamp e conhecido por sua atuação no caso da morte de PC Farias, em junho de 1996.
Wesley Mendonça Batista, sócio de Batista Junior e Joesley, dá duas explicações para a formação do cartel que seu irmão mais velho confessa nas gravações: acha que a fita ou é “montada” ou não faz sentido, já que os cinco maiores frigoríficos do País teriam um poder de abate de bovinos equivalente a 15% do total nacional.
Sobre o “contrato de gaveta” com o BNDES, Wesley afirma que se trata da assunção regular de uma dívida, mesma versão dada pelo banco oficial.
O BNDES reconhece, porém, que, mesmo após transferir a dívida do Araputanga para o Friboi, continuou a enviar boletos de cobrança ao Araputanga. A empresa diz ter constado como inadimplente no sistema do Banco Central, o que a impediu de tomar outros empréstimos na praça.
O BNDES também deixou de retirar o proprietário do Araputanga, José Almiro Bihl como fiador do empréstimo. “Estamos providenciando exatamente isso agora [a retirada de Bihl como fiador]. A gente está com um problema aqui no banco, de muito trabalho”, afirma Jaqueline Ferreira Lemos, assessora da área industrial do BNDES.
A operação no BNDES é considerada “heterodoxa” pelo fato de a unidade do Araputanga, garantia do empréstimo, não ter sido transferida legalmente ao Friboi, segundo os advogados de Bihl. Já Wesley diz que nunca arrendou, mas que comprou o frigorífico.
Wesley diz que o Araputanga quer dar “um golpe”. Segundo ele, depois que o Friboi pagou dívidas do frigorífico, o Araputanga quer o negócio de volta. Para Marcelo Merlino, advogado do Araputanga, o Friboi não cumpriu obrigações, por isso deveria providenciar a devolução do frigorífico. O caso está na Justiça.